O político devoto. Por F J Caminha

Ele no por do sol dos cinquenta, galanteador e garboso com base eleitoral no público carismático. Toda quinta-feira comparecia fielmente a novena das mil Ave Maria como forma de conter suas inclinações ao pecado sexual. Na condição de católico praticante e sendo divorciado se sentia impedido de namorar, uma vez que caso fornicasse não poderia receber a Eucaristia. Essa religiosidade o deixava imerso nas crendices populares do castigo, da culpa e do pecado.

Até que se envolveu apaixonadamente por uma mulher de 39 anos, recém separada, carente e praticante da religião de tradição africana, fato que ele desconhecia.

A química foi imediata como uma explosão de prazer no sabor das volúpias carnais mais extravagantes que o sexo proporciona. Agora se sentia livre e feliz como um adolescente apaixonado. Ela como uma deusa vênus lasciva propos logo se ajuntar com ele no mesmo teto. Por medo ou outros motivos, a paixão dele foi se consumindo como fogo de palha. Com vergonha de romper não teve coragem de dar fim a relação, passou a não atender as inúmeras chamadas e as mensagens deixadas no celular. Foi quando ela me ligou indignada indagando o paradeiro dele. Como os homens nutrem a lealdade e a cumplicidade entre si, fiz a ressalva que ele poderia ter perdido o celular. Encerrou a ligação com a ameaça: – ele vai me pagar.

Um amigo dele foi num Centro Espírita cobrar uma dívida de serviço de engenharia de um renomado Pai de Santo da cidade. O credor ao chegar aguardou o fim do atendimento da cliente, mas quando a moça saiu da consulta reconheceu-a como sendo a namorada do meu amigo devoto católico. O Babalorixá tinha quitado a dívida com o cheque emitido por ela que acabara de sair. Dias depois, o cheque retornou sem provisão de fundos. O credor decidiu procurar o ex-namorado.

– Amigo, eu fui no terreiro fazer uma cobrança de um serviço de engenharia e vi sua namorada saindo da consulta. O Pai de Xangô pagou a dívida com o cheque dela que retornou sem fundos.

Meu amigo supersticioso arrepiou de medo e preocupado com situação, comprou o cheque pelo valor de face e foi pessoalmente ter com o bruxo. Ao ser recebido, quis logo saber o que sua ex-namorada fora fazer lá.

– Ela encomendou um trabalho, mas é sigiloso.

– Acontece que ela te pagou com um cheque sem fundos e eu comprei o cheque e quitei sua dívida.

O Pai Xangô, pediu um momento, foi num altar dedicado a um dos Exus e retirou uma fotografia.

– É você?

Ele arrepiou de medo.

– Sim. O senhor já terminou o trabalho?

– Ainda não está concluído.

– Pelo amor de Deus, aceite o cheque de volta e desfaça o que começou.

Saiu do Centro Espírita para o trabalho em pânico e uma angústia paralisante que só o medo causa. Ao saltar do carro foi subitamente atropelado na esquina no cruzamento da Avenida Thompson Bulcão com a Rogaciano Leite. Ainda bem que só sofreu leves escoriações no corpo.

Apavorado no dia seguinte foi a Igreja de Santa Edwirges rezar a novena de cura e libertação. Fez promessa de toda quinta-feira não mais faltar as mil Ave Marias.

E agora eu pergunto:

Macumba pega?

 

Francisco Caminha é escritor, advogado, especialista em Ciência Política e servidor público.

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