Dia Mundial dos Pobres: A esperança dos pobres jamais se frustrará (Sl 9,19), por Pedro Sisnando Leite

Pedro Sisnando Leite é economista com pós-graduação em desenvolvimento econômico e planejamento regional em Israel. Membro do Instituto do Ceará  e da Academia de Ciências Sociais do Ceará. É professor titular (aposentado) do programa de mestrado (CAEN) da UFC, onde foi também Pró-Reitor de Planejamento. No Banco do Nordeste, ocupou o cargo de economista e Chefe da Divisão de Estudos Agrícolas do Escritório Técnico de Estudos Econômicos. No período de 1995-2002, exerceu a função de Secretário de Estado de Desenvolvimento Rural do Ceará. Publicou cerca de 40 livros em sua área de especialização e escreveu muitos artigos para jornais e revistas.

A Igreja católica, por convocação do Papa Francisco, comemorou nesse domingo (17/11) o dia Mundial dos Pobres, conforme sua mensagem publicada em junho desse ano. Por vários motivos, considero uma iniciativa providencial. Muitos historiadores, economistas e cientistas políticos estão convencidos de que a questão da pobreza é o maior desafio do mundo político, econômico e social do século XXI, nos países emergentes e desenvolvidos.
A pobreza é um fenômeno social multidimensional e mesmo que seja de caráter material   tem efeito psicológico, como a angustia de não poder dar   de comer aos próprios filhos, ou a insegurança de não saber como se manter no futuro. Com frequência, as ações para combater a pobreza ignoram o fator humano e, em contrapartida, dar prioridade aos aspectos técnicos e sociais. Mas o maior pecado contra os pobres talvez seja a indiferença e a omissão dos responsáveis em fazer de conta que não vê, e passa a distância dois necessitados. Outra visão comum é aceitar a pobreza como algo comum e natural da sociedade; como o leitor deve conhecer alguém que pensa desse modo!
Diante disso, a primeira coisa a fazer em prol dos pobres é quebrar os vidros duplos de insensibilidade pelo sofrimento desses excluídos. Fazer com que os pobres penetrem em nosso coração. Dar-nos conta de que   no Brasil os pobres somam mais de 54 milhões (dos quais 44% estão no Nordeste) e no Ceará cerca de 4 milhões. Esses números são superiores aos registrados no ano de 2002. Aliás, as Nações Unidas não informaram os dados pertinentes ao Brasil no dia Mundial dos Pobres por inconsistência.
Destaco aqui uma motivadora convocação dos economistas e fiéis leigos para que reflitam sobre a necessidade de mudanças nas políticas e estratégias de desenvolvimento econômico especialmente do Nordeste, para reduzir as desigualdades e as discriminações sociais hoje existentes.
O Papa Bento XVI, adverte, em sua Encíclica “Spe Salvi” (sobre a esperança Cristã), que Deus é a esperança do mundo. Ele mostra que o desenvolvimento da ciência moderna confinou cada vez mais a fé e a esperança à esfera privada e individual. Dessa maneira, em certas ocasiões dramáticas, o homem e o mundo têm necessidade de Deus, pois do contrário ficariam privados de esperança.
O ex-presidente do Banco Mundial Robert McNamara (1968-1981), no seu último discurso na gestão do Banco, disse: “A pobreza absoluta é um insulto a dignidade humana de todos nós. Para o próprio pobre, nós temos coletivamente poder para fazer mais para a luta contra a pobreza, e nós todos fracassamos”. O Prêmio Nobel de economia Joseph Stiglits reconheceu que nós deveríamos ter mais humildade e reconhecer que fracassamos no combate à pobreza nos países subdesenvolvidos de todo o mundo”. No Brasil, os governantes e políticos fizeram muita demagogia, clientelismo e corrupção em nome dos pobres, mas todos fracassaram. Tudo ainda estar por fazer, conforme demonstro em vários livros publicados sobre o assunto.  O que foi bem organizado foi um sistema de “Indústria da Pobreza” e de programas assistencialistas para atender interesses políticos e ideológicos.  Há 50 anos tenho me dedicado ao estudo, ensino e trabalhos de luta contra a pobreza no Nordeste e posso também atestar uma verdadeira revolução econômica e social que foi realizada pelas instituições regionais, governadores e políticos e pelo setor privado. Mas, como disse o economista Celso Furtado em sua última manifestação pública no Banco do Nordeste, quando foi lançada e recriação da SUDENE: “Trabalhamos muito, mas não fizemos o principal, erradicar a pobreza regional”.
O professor Andrew Britton, da “London  School of Economic”  está realizando estudos sobre a ética  e a economia  em relação as Igrejas Cristãs. Ele está convencido de que as falhas de mercado que têm prejudicado o desenvolvimento econômico, como o que acabamos de mencionar, estão associados aos pressupostos tradicionais da economia que precisam incorporar outros aspectos do comportamento humano. Especialmente o espírito cristão, que evoca o amor ao próximo e a coesão social.
Falando de ética nos negócios, em 1985, Bento XVI, então cardeal Ratzinger, advertiu os malefícios que podem advir de um sistema econômico que elimina a sua base moral. De fato, há evidência de que a diminuição da disciplina de um sistema ético determinado pode causar o colapso das leis do mercado. O Papa Emérito, Bento XVI nos deu também, em sua Encíclica “Caritas in Veritate”, um roteiro para um futuro que inclui a ética no centro da economia, não às margens como vem ocorrendo em muitos países, inclusive no Brasil.
É restritiva, de fato, a concepção de racionalidade absoluta que fundamenta as teorias econômicas vigentes. Elas buscam tão somente capturar o comportamento das pessoas como consumidoras de bens econômicos. Mas, como dizia Pascal, “O homem ultrapassa infinitamente o homem”. A fé cristã e suas tradições, segundo o cientista Britton, têm muito a dizer sobre a natureza humana e quanto aos mundos sociais e físicos em que vivem.
Como especialista em teoria econômica, recomendo que os economistas precisam voltar a estudar a Escola Austríaca para entenderem que a economia é uma ciência humana, da ação humana, que mexe com a vida de todos e, portanto, não pode ser tratada de forma exclusivamente quantitativa, como está sendo lecionada hoje nas universidades brasileiras.
Para a construção de uma sociedade mais fraterna, em contraste com o objetivo do lucro como motor da produção de bens, há necessidade de que as divergências entre essas concepções se unam e surja um diálogo prático em benefício de “uma nova economia”. Baseada em princípios morais da fé religiosa, capital social e ética no desenvolvimento.
É preciso, para isso, harmonizar o conflito entre a busca egoísta da eficiência material e a eficiência social compassiva, sem assistencialismo. Especialmente tendo em vista aqueles que estão sofrendo as consequências do desemprego, da fome e exclusão. Em outras palavras, a teoria do desenvolvimento, elaborada no contexto dos países ricos, deve e pode ser melhorada.
Desse modo, emergirá um desenvolvimento verdadeiro que é o “nome novo da paz”, segundo propôs o Papa Paulo VI, na sua Encíclica sobre o desenvolvimento integral do homem e solidário da humanidade (Populorum Progressio). Nunca é demais sublinhar, de fato, o apelo que deve ser feito a todos os homens e mulheres de boa vontade para que se esforcem, pela via do conhecimento e da ação, em viabilizar formas de organização da sociedade que melhor salvaguardem um mundo mais justo e mais fraterno. Em particular no plano da família e das relações sociais, no plano da profissão e da cultura, da investigação científica e da política.
Esta é, na verdade, uma questão essencial, unida ao tema da dignidade da pessoa humana. Ou seja, a promoção da família, baseada no matrimônio, como destaca o cardeal Ângelo Sodano como mensageiro do Papa Bento XVI na Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos (2006).       Promover a família é uma tarefa essencial para o desenvolvimento da sociedade de todo o Continente. A família é o lugar do aprendizado, do conhecimento, da formação básica do futuro protagonista da vida social e do desenvolvimento econômico.
Finalmente, há de ressaltar que a nova economia ética, da qual o mundo atual tem urgente necessidade, deve incluir entre as suas componentes essenciais o anúncio da Doutrina Social da Igreja, tão idônea hoje como no tempo do Papa Leão XIII (Rerum Novarum).
Dada a limitação do espaço de uma Crônica, tenho a satisfação de oferecer um livro de minha autoria “As Armas Contra a Pobreza” onde se encontram analisados a questões essências sobre a pobreza no Nordeste e Ceará e que foi lançado em várias plataformas digitais no Brasil e no exterior. O Site é da Academia Cearense de Ciências:   www.aceci.com.br

Mais notícias

A união se faz à força? Por Ricardo Alcântara

Como convencer a Sarto de sua inviabilidade eleitoral, mesmo com percentuais de intenção de voto tão pálidos nas pesquisas, quando se sabe que, numa disputa apertada, excluir um prefeito da reta final de um segundo turno não é tarefa fácil?

Leia Mais »

A união se faz à força? Por Ricardo Alcântara

Como convencer a Sarto de sua inviabilidade eleitoral, mesmo com percentuais de intenção de voto tão pálidos nas pesquisas, quando se sabe que, numa disputa apertada, excluir um prefeito da reta final de um segundo turno não é tarefa fácil?

Leia Mais »