A voz das ruas. Por Angela Barros Leal

É de conhecimento público que a rua tem olho, e que as paredes têm ouvidos. Em sendo assim, não espanta a ninguém que a boca das ruas esteja nos muros, bem como não admira que os tubos de spray, ou as latas de tinta, sejam delas a língua. Não pairam dúvidas, portanto, de que as ruas falam, enviam seus recados, alardeiam legivelmente suas públicas mensagens.

Uso a palavra legível por não incluir, na minha lista de comunicação urbana, os rabiscos, as garatujas sujas, os garranchos incoerentes, os arabescos toscos que sujam as fachadas: na minha opinião, tal conjunto integra a categoria do spam, do ruído de fundo, de uma possível conversa cifrada entre grupos cuja linguagem me é interdita, ou simplesmente não me faz interessada.

De igual maneira, não incluo aqui as requintadas pinturas, os desenhos de impressionante perfeição, os murais que são verdadeiras obras de arte, dignas de preservação em paredes institucionais e de maior permanência que a efemeridade das superfícies expostas ao desgaste do tempo. 

Quando me refiro à fala das ruas, nessas descompromissadas linhas (tema sobre o qual, estou certa, já houve quem tenha sobre ele se debruçado em criativas monografias, em aprofundadas teses, em detalhadas dissertações), levo em conta palavras ou frases capazes de comunicar um pensamento coerente, aberto à pronta compreensão de quem lê. 

Em resumo, uma voz capaz de fazer cócegas no pensamento alheio, ou de pelo menos estimular diálogo entre um ser humano e uma superfície de tijolo, cimento ou pedra que componha um aglomerado de pessoas, a alma de uma cidade.

A exemplo da frase A VIDA SÃO DOIS DIAS, entrevista pela janela do trem, pichada em um muro lusitano, entre rabiscos grosseiros e palavrões. Um choque de realidade pura, brotando de onde menos se espera, foi o que pensei com meus ajustados botões. Pois a vida se resume a dois dias, como acredita o filósofo anônimo, deixando sua certeza registrada em pinceladas grossas sobre o tijolo exposto: o dia de se chegar ao mundo e o dia de partir, sabedoria que talvez tenha ele aprendido no laconismo das lápides. 

O que vier a acontecer entre esses dois dias, posicionados como suportes de livros, o que quer que venha a estabelecer um distanciamento maior ou menor entre as duas extremidades, o que possa constituir o miolo das duas metades, para o autor da frase, tudo isso que costumamos chamar Vida, seria supérfluo, desnecessário. É nascer – respirar o suficiente para abrir uns poucos espaços em branco, uma leve pitada de reticências –, e em seguida morrer.

Imagino que o autor seja jovem e rebelde. Que leia Schopenhauer. Que cultue o niilismo. Mas que seja também menos angustiado que aquele outro presumido jovem, cuja mão valeu-se da língua inglesa para protestar, sobre a superfície metálica de uma caixa de eletricidade, em um ruidoso cruzamento viário, a frase: IT SEEMS LIKE I LIVE IN A DESERT. Em bom português, “parece que eu vivo em um deserto”. 

Ora, ora. Achei curioso, tal atestado de solidão em local de tamanho trânsito de veículos e pessoas. E logo desachei. Tão deslocado me pareceu, que empenhada em uma segunda e mais cuidadosa leitura percebi, aos poucos, despontar um grau crescente de ironia, uma queixa velada contra os excessos da modernidade, de efeitos bem descritos por Eça de Queiroz no conto intitulado “Civilização”: “É no máximo de civilização que o homem experimenta o máximo de tédio”.

Sem questionar o imbatível Eça, discerni outro monólogo da cidade em um muro rochoso nas imediações do metrô. Acima de um aglomerado de folhas pisadas, próximo ao esqueleto de um guarda-chuva desventrado pelo vento, imperava em negro a inscrição LOCUS LOUCOS. Lugar dos loucos, traduzi, em minha inexistente ciência da língua latina. Legenda talvez apropriada para ornar portões de acesso a um outro e desregulado mundo.

E o que dizer da singela receita, carimbada no muro de uma travessa das mais estreitas, recomendando aos passantes apressados, sem distinção de idade ou condição social: ESPERANÇA 500mg. Com essa dose diária ou semanal de esperança, prescrita aos descrentes, aos céticos, aos desiludidos que acreditam ser a vida resumida a dois dias, talvez grande número dos problemas venha a sumir e desvanecer, resgatando no organismo a desejada cura. Pelo menos é o que nos sugere a voz das ruas.

 

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.

Mais notícias