A união se faz à força? Por Ricardo Alcântara

Cid Gomes declarou que pretende se candidatar à presidência estadual de seu partido, o PDT, num movimento que, pelo menos de início, anunciou como um esforço de união de suas duas correntes, a que apoia o governo de Elmano de Freitas e a outra, concentrada no diretório de Fortaleza, que, pelo menos por enquanto, do petista quer distância.

Aliado do governador Elmano e do presidente Lula, e conciliador nato, não é difícil o senador obter o que pretende: 75% da bancada estadual do PDT já se encontra alinhado com ele na base de apoio ao Abolição e tem mais 60 prefeitos escutando a conversa – e nenhum, certamente, deseja desavenças com o governador.

O difícil de obter é o objetivo exposto na mensagem com que o senador chama para si a missão de unificação. O racha é tão profundo que começa dentro de casa: depois das eleições, como se sabe, ele e Ciro não assistem missa na mesma paróquia, mas o amor é lindo e briga de irmãos tem prazo de validade. Cid está disposto até a ceder a candidatura ao senado em 2026 para o mais velho dos Ferreira Gomes.

Difícil porque a opção de romper com o governo de Elmano teria o impagável preço de perder uma bancada de dez deputados que não abrem mão do governismo por nada e a alternativa a isso, que seria dar um “senta aqui, bebê” na outra banda esbarra em 2024: José Sarto quer disputar a reeleição, enquanto correntes internas fortes do PT avisam já a intenção de entrar na disputa.

Como convencer a Sarto de sua inviabilidade eleitoral, mesmo com percentuais de intenção de voto tão pálidos nas pesquisas, quando se sabe que, numa disputa apertada, excluir um prefeito da reta final de um segundo turno não é tarefa fácil? Ele só precisa de 20% de intenções para botar o pé na porta e cantar “daqui não saio, daqui ninguém me tira”

Tão difícil quanto isso é convencer a base de um partido que, como o PT, detém o poder – federal, com Lula, e estadual, com Elmano – a ceder a vaga numa aliança em Fortaleza, onde a sigla tem uma candidata obcecada em voltar ao Palácio do Bispo, estribada em intenções de voto na faixa de 27% na última pesquisa de opinião (instituto Paraná). Para uma disputa apertada com três ou quatro candidatos fortes, o patamar de largada é alto e tem muita gente dando corda por razões outras.

Bem, nada do que foi dito acima está fora do mapa que o pragmático Cid Gomes abriu sobre a mesa. Ele tem consciência de todos os elementos deste cenário, além de outras valiosas informações de que não disponho. Dito isso, observe: o senador disse que pretende ser candidato para unir o partido. Ok. Mas não disse que só será candidato à sua presidência no caso de uma indicação unânime de suas correntes. A lição do fiorentino – “Dividir para governar” – pode não ser uma alternativa descartada, mas não é seu estilo habitual.

(O título deste artigo é uma citação ao poeta Augusto Pontes, um correligionário do senador que já nos deixou.)

Ricardo Alcântara é publicitário, escritor e colaborador do Focus.

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