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“Seu” Aguiar, lanterneiro da RVC e ativista comunista em Mondubim; Por Paulo Elpídio de Mezezes Neto

A velha estação do bairro

Por Paulo Elpídio de Menezes Neto
Articulista do Focus

Por esse tempo, transcorridas algumas décadas, Mudubim era apenas o prenúncio do que seria, um dia, desde que passasse a chamar-se Mondubim, por obra e graça de reforma inspirada em uma espécie de arqueologia dos nomes dos lugares a que se dedicam por hábito zelosos pesquisadores.

Era um povoado espalhado em duas ruas de areia, uma de entrada e a outra de saída para a estrada que levava a Porangaba e a Monguba. Na praça, a Igreja, fortaleza da fé, traço marcante da força do catolicismo e do seu progresso entre as populações sertanejas. Sendo um mero apêndice de Porangaba (que viria, por sua vez, chamar-se Parangaba), Mudubim não passava de um Distrito.

Um velho gerador, o cata-vento com poço profundo e um chafariz era tudo o que se podia assemelhar à prestância dos serviços públicos federais, estaduais e municipais. A estação de trens da estrada de ferro, o grupo escolar e uma subdelegacia de polícia não poderiam ser esquecidos entre os sinais, pouco visíveis, aliás, da presença das instituições públicas entre os mudubinenses. Respondiam pelo suprimento das primeiras necessidades e das últimas dos moradores as bodegas e botequins, que eram quatro, ponto de provisão e de reuniões intermináveis.

O funcionário mais categorizado em Mudubim, por então, era o Chefe da Estação, “seu” Alcides, homem de certa idade, enfiado em um dólmã caqui, um tanto gasto pelo uso, atento aos seus trens, aos passageiros e às cargas eventuais que partiam ou chegavam, dado que o lugar não era, propriamente, um entreposto comercial de importância.

A cada composição que entrava em seus domínios, repetia a mesma liturgia a que se habituara em seus trinta anos na Rede de Viação Cearense – RVC. Assumia o comando das operações de embarque e desembarque como se estivesse na estação de Waterloo, em Londres. Olhando aquela figura, charuto proeminente entre os dedos, senti insinuar-se em mim o que terá sido o primeiro sinal de vocação para o serviço público. Chefe de Estação, maquinista ou sinaleiro, qualquer posto que envolvesse as complexas atividades de lidar com trens, trilhos e locomotivas. Criança, associei a figura de “seu “ Alcides à Churchill, velho e gasto clichê que frequentava, por aqueles tempos de guerra, as páginas do Unitário.

A figura mais insinuante, dentre os habitantes do lugar, era o “seu” Aguiar, funcionário ferroviário aposentado, cego de um olho, o que lhe emprestava o ar severo de um herói de guerra. A túnica justa, colarinho fechado, como se fosse um mujique, lembrava aquelas fotos heroicas dos bolcheviques de São Petersburgo. Já o conheci comunista, convicto e demolidor. Distribuía entre leitores anônimos a “Voz Operária”, braço longo do partido a levar informações aos simpatizantes da causa que não eram muitos, nem conhecidos. Muitos deles, antigos assinantes dos sueltos e editoriais, contraídos pela exaltação daqueles anos durante os quais o getulismo anunciava as conquistas de um populismo entremeado de socialismo mal digeridos.

O “seu” Aguiar imginário do autor

Trocava algumas cumplicidades com o avô, riam das graças em uníssono. “Seu” Aguiar associava a essa faina de gazeteiro a outras atividades que, como a anterior, poderiam ser classificadas como contravenção da ordem, tais como a venda de carne de boi ou de bode de “moita”, atividade a que se entregava o velho Aguiar, como se dizia dos abates clandestinos. De certo, pelos seus assomos verbais, “seu” Aguiar era trotskista, de quem lembrava o olhar seguro das suas certezas e revelações que guardava e as recolhia, na afabilidade de velho octogenário. Carregava água para as casas em latas de querosene, penduradas em uma vara que levava sobre os ombros.

Fizera-se amigo do vizinho, meu avô, velho advogado com residência na Capital, que vinha a Mudubim de tempos em tempos com a família. Homem sensível às causas populares, Paulo Elpídio já dividia, então, o seu tempo entre as atividades de procurador fiscal do Estado e a de advogado voluntário da capatazia das docas do Mucuripe, a famosa estiva, de onde partiram os primeiros movimentos sociais da cidade. Tinham, ambos, como se pode ver, afinidades eletivas que os prendiam em longas conversas, após o jantar, sentados na calçada de nossa casa, sobre questões de política e de fé.

Meu avô, já aposentado, maçom graduado, fora redator de um atuante jornal, em Fortaleza, dirigido por Júlio de Matos Ibiapina, reduto de intelectuais e jornalistas independentes e belicosos. O Ceará travava combate verbal diário com O Nordeste, cada um dos jornais entrincheirado na sua barricada, a verberar as suas razões e desrazões de fé, em combate que mal lembrava as rixas de huguenotes com católicas, mobilizados em favor da salvação dos homens.

Certa noite, anunciada a rendição incondicional da Alemanha às forças aliadas, o entusiasmo de “seu” Aguiar, já tomado de cachaça, a dar vivas à URSS. A voz rouca enfatizava, aos gritos, em incontida alegria, a sigla do Estado soviético, mas não dizia as letras, carregava na repetição de uma palavra que elas formavam um grito primal:

— Viva a UUURRRSSSS!

Nem tudo eram avanços na sociedade de Mudubim. Exceção da família Brasil, protestante, que morava do outro lado dos trilhos da rede ferroviária, o grosso dos mudubinenes era de católicos, se não praticantes como lhes impunham as regras da sua confissão, não escondiam a sua carga de beligerância, em defesa das suas crenças e filiações. Esse fervor de cruzado era comum à época. Por felicidade, não se transplantaram da Europa para aquelas doces paragens os conflitos entre huguenotes e católicos, as antigas porfias de cristãos em franca dissidência que tantas almas sacrificaram, na pretensão de s do erro e dos excessos de Roma. O trilho dividia as crenças dos mudubinenses como o Muro de Berlim, dividiria os berlinenses e os aliados da véspera.

Pôde, assim, por pura negligência dos antagonistas, “seu” Aguiar viver em paz, com a sua militância comunista, e os Brasil, com a sua perfilhação protestante. Mudubim era uma espécie de Suíça, pelo menos na aparência, com certos pendores para Casablanca, nos idos da segunda guerra mundial. Essa paz difusa não impediu que a mando das famílias gradas, em face de um surto inesperado de exaltação soviética, fosse “seu” Aguiar preso pelas forças da ordem, um cabo e dois soldados que viviam empenhados em dar um flagrante que lhes permitisse ter um preso como companhia naquelas noites vazias de Mudubim.

Informado da violência praticada pela autoridade, lá foi Paulo Elpídio bater às portas da delegacia, a desoras, quando os carcereiros e o único preso já dormiam, esquecidos do episódio e das ameaças iminentes do comunismo soviético. Sustentadas as razões postuladas perante o subdelegado, evocados a Carta Constitucional e o Tratado de Viena diante da guarnição sonolenta, “seu” Aguiar foi posto em liberdade.

– Liberdade provisória e vigiada! advertiu o cabo, pretendendo dar a questão por finda, não sem antes deitar voz de autoridade

Não se pense que Mudubim, descrita com as concessões da simpatia de quem adotou o lugar e por ele deixou-se adotar, beirasse os contornos de uma república de Weimar. As inclinações democráticas confessadas e a simpatia pela causa de “seu” Aguiar não eram compartilhadas por todos. Aliás, muito poucos dos mudubinenses, entre os quais o dr. Paulo Elpídio, demonstravam essa afeição, levados, provavelmente, pelos feitos heróicos dos exércitos soviéticos na tomada anunciada de Berlim, acompanhados ao vivo em um também heróico Motorola de seis válvulas, em torno do qual se reuniam a família, os agregados e o “maquisard” local da resistência contra Hitler, o “seu” Aguiar.

A torcida não dissimulava a sua ansiedade por ver o Exército Vermelho alcançar a Friedrickstrasse, centro do poder nazista. Discutia-se abertamente a hesitação do Quartel General do Marechal Malinovski, em decidir sobre a tomada de assalto da Chancelaria do Reich. Até mesmo o “camarada” Aguiar exaltava-se ao defender a sua estratégia de avançar e fazer uma “tesoura” para pinçar as forças da resistência, não poupando severas críticas ao comando das forças soviéticas:

Se fosse comigo seria diferente. Atacava com os tanques, botava esse bando de “heil hitler” pra correr, passava-lhes fogo na bunda!  

Pois bem, “seu” Aguiar era o que se chama uma personalidade controvertida como o viam os distinguidos cidadãos mudubinenses. Mudubim era um vilarejo que foi crescendo entre a estrada em sua marcha para Monguba, por onde nascera um certo Aldemir Martins, e a estrada de ferro. Nele se refletiam as paixões, os interesses e todas as circunstâncias, humaníssimas circunstâncias, predominantes entre os cearenses – e os mudubinenses.

Por ser distrito de Porangaba, como já se disse, não possuía prefeito, nem subprefeito que a tanto não chegava a sua importância geopolítica. A autoridade do vigário pairava acima dos credos, não era contestada pelas ovelhas do seu disciplinado rebanho. Algumas paroquianas, com tempo de serviço e patente assegurada na hierarquia da fé local, exerciam o seu poder e influenciavam o velho pároco, hábil, senhor de muitas espertezas que o faziam conciliar a fé com as contingências de cada dia, receita que o levara a dar-se bem no exercício pleno do seu já longo ministério em prol das almas a recolher para o rebanho do Senhor. Valiam-no as galinhas de cabidela da casa dos Quevedos, trazidas pela velha senhora Alaíde, em obsequiosa dádiva ao santo sacerdote paroquiano.

A dissidência teológica da família Brasil, presbíteros que eram poucos naquelas pelejas da fé, não afrontava a circunspecção católica e os cultos, praticava-os, com prudência, em Fortaleza, lembrados de conflitos passados e dos padecimentos dos protestantes nas labaredas da Revelação. Mantinha-os em segurança a sua discrição, a sábia renúncia ao proselitismo e os trilhos da RVC. Os caminhos de ferro e a fé eram, como se viu, apenas um traçado metafórico entre os caprichos contestatários de Lutero e as concessões do Papa para a venda das indulgências plenárias.

Mondubim, chamemo-lo assim, tinha o seu patriciado, recheado de precedências, bacharéis, funcionários públicos, em sua maioria, negociantes de secos e molhados, estabelecidos no comércio local, um desembargador aposentado, objeto de reverências e visitas de vassalagem. Motivo de honra maior consistia, entretanto, no fato de o Cônsul Bertrand Boris, encarregado dos negócios da França em Fortaleza, manter lá, à entrada dos primeiros casarios do lugar, uma vasta propriedade. A importância da família e dos imóveis era avaliada pelo número de portas e janelas das casas, por um jardim eventualmente plantado, pelo alpendre ensombrado… Era considerável o respeito que impunham os “de fora”, os não residentes, já que vinham a Mondubim para as férias ou a passar feriados. Mas quem, de fato, mandava na vida dos domiciliados no local eram os que lá moravam.

O que mais atraía aos de passagem por Mondubim eram as festas religiosas, as quermesses, as novenas e as lições de catecismo. Nesses dias, a “pracinha” para onde davam as residências das famílias mais distinguidas, assumia ares de logradouro importante, com moças e rapazes em contínua circulação e algumas rodas de senhores em conversa animada. As mulheres ocupavam-se do movimento das barracas e ordenavam a concorrência dos partidos azul e vermelho na venda de lembranças e das rifas em benefício da Igreja.

A praça de Mondubim exibia uma peça de que se orgulhavam os cidadãos locais. Um chafariz que segundo se dizia havia sido feito na França. Era uma peça singular, destoando pela beleza do que mais se encontrava por ali. Construção sólida e elegante em ferro fundido, dele saiam três torneiras, dirigidas para cada um dos três lados. Encimava-os uma coberta sobre quatro colunas. Anos depois, encontrei alguns exemplares semelhantes em Paris, com uma diferença, ditas por lá como colonne Wallace: complementava-os as três graças, leves, esbeltas, dispostas na parte central da peça. Dizia-se que o chafariz viera para o Ceará com as estruturas metálicas que originaram o Mercado dos Pinhões, em Fortaleza e, afirmavam algumas pessoas entendidas, era da época da construção do Teatro José de Alencar. Muitos desses ornamentos desapareceram, alguns foram salvos por alguns mecenas cuidadosos. O velho chafariz foi de lá arrancado e Deus saberá o que dele foi feito.

A vida comercial e, de algum modo, a social e a boêmia não emprestavam a Mudubim o colorido de uma vida movimentada, tampouco chegavam os habitués das rodas de cachaça a comprometer os hábitos pacatos das famílias.

“Seu” Aguiar dava as suas incertas pelas bodegas, misto de armarinho, mercearia e bar, já que todas elas haviam renunciado à opção de um ramo definido. Havia horas em que a clientela se avolumava, não tanto pelas compras, mas pela conversa que os tragos de cachaça animavam.

A bodega do Zé Sabóia era a mais sofisticada de toda e, ao contrário das demais, seguia rígida disciplina do seu proprietário. As conversas eram por ele acompanhadas atentamente e, de tal forma, se envolvia pessoalmente nos assuntos tratados que, em pouco, dominava e controlava a palavra dos circunstantes, impunha precedência e definia restrições que a todos cabia obedecer. O Quevedo não podia queixar-se do movimento na sua bodega, ainda que não demonstrasse a mesma disposição para participar da conversa dos fregueses.

O outro estabelecimento pertencia ao “seu” Chiquinho, ficava mais para bar de cachaça do que para bodega, com clientela incerta, mas sempre cheia de gente. “Seu” Chiquinho não era propriamente um homem de negócios: confraternizava com a freguesia, bebia, agitava-se e misturava-se aos convivas, numa perfeita demonstração do quanto lhe tocavam as amizades com quem partilhava o seu estoque de aguardente. Ali, a ninguém era negado crédito e dependuras duradouras.

Zé Sabóia já era em vida personagem que poderia entrar em qualquer enredo, crônica, conto ou romance. Tinha bagagem para empanturrar qualquer escritor que se dispusesse, como Milton Dias era dado a fazer, a extrair suas confidências e inconfidências, sem que o depoente se desse conta, traído que era pela habilidade do entrevistador.

Não o vi, a não ser uma só vez, que não estivesse enfiado em um pijama de listras, espécie de uniforme inseparável que envergava para dormir, balançar-se em sua rede, à hora da sesta, e nas graves responsabilidades exercidas como bodegueiro, palavra que não lhe agradava; dizia-se comerciante, sem que cometesse qualquer deslize ou falta na definição do seu negócio. Chapéu de palha sobre a cabeça, quando os fregueses escasseavam, sentava-se em uma cadeira de vime, à porta do estabelecimento, para ler, com meticulosa atenção a edição da tarde do “Correio do Ceará”, que lhe chegava, antes do trem, pelo ônibus de Redenção. Ai de quem ousasse interromper a sua leitura. Se freguês teria que esperar, caso se tratasse de estranho de passagem, sequer lhes dispensaria a atenção de um aceno. Fechado o jornal, partia para a freguesia, com as últimas notícias e a sua opinião formada sobre acontecimentos, pessoas e coisas. Apreciava, dentre os articulistas do “Correio”, a crônica de Vicente Roque que se assinava VR, seu primo e frequentador assíduo dos almoços de domingo em sua casa.

Nas idéias, Zé Sabóia era seguramente um conservador, tinha alguma leitura que lhe dava ares de pessoa de saberes entre os mudubinenses de pouquíssimas leituras. Era homem de opiniões firmes, controlador das conversas, arrimado na leitura percuciente do “Correio” e do “Almanaque da Mayzena” servido por boa memória e de expressão fácil, com um pretensioso tom didático que, aliás, lhe caía bem. Homem metódico, cheio de pequenas manias, morigerado nos vícios e na ambição — e avaro por profissão, sempre vigilante com a sua contabilidade pessoal que dinheiro não se ganha sem suor, como dizia. Vivia com a mãe, Dona Maroca, mulher que, à época, passara com certa displicência pelos oitenta anos, indiferente ao calendário.

Para os trabalhos domésticos, da cozinha, da limpeza, dos cuidados com a mãe e das necessidades da bodega recorria a uma negra gorda, que vivia em sua companhia há muitos anos. Nome não tinha, assumira o apelido “Nêga”, a que atendia pressurosa, riso largo aberto, sempre disponível para uma conversa fiada. Vissem-na os médicos de hoje, cujo patrimônio de doenças e moléstias ampliou-se em relação aos seus antecessores, diriam que sofria de dislexia. Na verdade, a “Nega” estava mais para idiota do que para outra coisa.

Solteirão, remediado financeiramente, proprietário da bodega e de dois imóveis em Mondubim, Zé Sabóia era cercado por um certo mistério que a língua dos autóctones ampliava, emprestando-lhe conotações suspeitas, não raro misteriosas. Dizia-se que vivera amasiado com a Nêga, quando ela era mais moça, com muitas carnes rijas e acolhedoras. Abandonou-a quando a moçoila foi, aos poucos, perdendo o viço da mocidade, engordando e botando corpo, impondo-lhe esforços incompatíveis com a sua idade de velho pervertido aposentado.

Uma vez por mês, Zé Sabóia reavivava a curiosidade da vizinhança e da freguesia fiel do seu estabelecimento. Era quando ia a Fortaleza para fazer compras para a renovação do estoque da bodega. Lá passava o dia inteiro. Tomava invariavelmente o ônibus de Redenção, por volta das 7 horas da manhã, voltando ao final da tarde com a mercadoria despachada. Os mais curiosos vigiavam-no, de longe, suspeitando dos seus movimentos. Houve quem imaginasse que ele tinha um filho em Fortaleza, criado pela mulher que abandonara. Ou que para lá se mandava, atraído pela liberdade que a cidade grande oferecia, poupando-o da indiscrição dos mondubinenses.

Nunca se chegou a saber o que o levava a Fortaleza, em data e hora certas, metodicamente, como se fosse a um encontro marcado. Pouco antes de morrer, desfez-se do negócio para viver da sua aposentadoria do Instituto dos Merceeiros. Foi longevo como os da sua estirpe: era um homem tranquilo. Confessava-se católico, mas não ia à missa.

Comecei por falar na mansidão de Mudubim, habitado por gente pacata, no geral funcionários e empregados no comércio em Fortaleza. Sem falar nos não-residentes, famílias que mantinham propriedade e casa em funcionamento e que vinham para os fins de semana ou para os longos meses de férias. Integraram-se aos poucos à vida da gente de Mudubim e com ela conviviam amistosamente. Os Quixadás, os Menezes, os Gadelhas, os Dutra Nunes, os Porto-Carrero, Nice e Estrigas, os Rossas-Mota e os Boris eram presenças frequentes, vistos nas missas domingueiras, com os filhos e os netos que já eram muitos. Dos residentes fixos, a família Firmeza, os Quevedos e os Saboias, já citados; os Brasil, os Caracas, os Alencar, “seu” Osvaldo, “Seu” Aguiar, o Silas… Os Diogo compareciam com regularidade e alegravam com a juventude de muitas meninas em flor, em temporada de férias prolongadas, aquela paragem dos verdes anos, sítio cujas lembranças sobrevivem ao esquecimento.

Resisti à tentação de tornar ao lugar da infância, mas não foi por muito tempo. Regressei, certo dia, aos cantos de tantas recordações, em companhia de Zuleide, em busca de lembranças esmaecidas na memória, para descobrir fantasmas perdidos, como no poema de Longfellow do velho relógio sobre a escada, “forever – never! never – forever!”, os risos, a tristeza e as saudades reencontrados.

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

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