Desglobalização e Oportunidades. Por Igor Lucena

Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

O processo de desglobalização é algo que vinha sendo debatido há bastante tempo, inclusive, devido à sua importância, se tornou assunto dentro dos fóruns de debate internacional e principalmente nas políticas internas dos países. O momento é de reabertura de nações após a crise da Covid-19 e principalmente de tensão com o início da guerra na Ucrânia.

Se por um lado existe a clara visão econômica de que a desglobalização gera um maior empobrecimento a nível global, e que ao mesmo tempo diminui a eficiência da cadeia produtiva, também é verdade que a Globalização não foi capaz de incluir todos os agentes econômicos dentro das cadeias globais de valor, e alguns elos dessa cadeia de fato obtiveram mais lucros que outros.

Neste contexto, o Brasil nunca de fato conseguiu se integrar totalmente às cadeias globais de valor, seja por sua ineficiência na abertura econômica, que sempre foi algo não acabado, pela complexidade dos impostos e das enormes dificuldades de se fazer negócios aqui em nosso país ou, ainda, seja pela forte proteção aos mercados nacionais.

Ao contrário, nações como a China e a Índia fizeram suas reformas, avançaram no cenário internacional e são, hoje, grandes centros nas áreas da indústria e dos serviços, com um valor agregado cada vez maior dentro das cadeias globais de valor. Vale ressaltar que a Índia possui hoje mais de 120 satélites no espaço, tudo com desenvolvimento de tecnologia própria.

Apesar de todas as benesses que a Globalização proporcinou ao mundo, o que se nos apresenta hoje é um cenário adverso para essas nações. O forte lockdown chinês, as distâncias geográficas e principalmente a imparcialidade dessas nações em conflitos internacionais ‘elegeram’ a segurança como sua principal prioridade. Não estamos falando apenas de segurança militar, mas também de cybersegurança e segurança produtiva relacionada à sua cadeia de suprimentos e fornecedores.

Neste contexto, a desglobalização pode, em tese, oferecer para o Brasil e para a América Latina uma oportunidade. As sanções econômicas à Rússia fazem com que os Europeus procurem outros parceiros para suprir suas necessidades de matérias-primas minerais e fontes energéticas. Os Estados Unidos precisam de locais próximos às suas fábricas como suporte, tal como ocorre no México, e para o desenvolvimento de seus fornecedores. Grandes indústrias que exportam para os Estados Unidos veem com ceticismo a manutenção de todas suas plantas industriais na China. As empresas japonesas preparam planos para incentivar a volta de algumas companhias ao seu território.

Vivemos hoje em um cenário no qual as empresas passam a considerar nos seus custos as pandemias, as guerras, as disrupções de cadeias produtivas e outros fatores macroeconômicos e geopolíticos que eram impensáveis de assim sê-los na década passada, de tal forma que a Globalização e a expansão das cadeias globais de valor eram algo claro, objetivo e sem grandes complexidades, dado ao mundo em que a lógica econômica vinha em primeiro lugar e estava acima de tudo. Hoje não é mais assim.

O fluxo de Investimento Direto Estrangeiro para nações da América Latina pode aumentar nos próximos anos, mas não pela melhora das condições de negócios da região ou por uma maior capacidade de expansão econômica, mas sim pelas condições geopolíticas. Nações como o Brasil, o México e a Colômbia são dinâmicas e vêm se desenvolvendo ao longo dos últimos anos; elas possuem fortes relações comerciais principalmente com os Estados Unidos e a União Europeia, e sua localização de portos e aeroportos é facilmente conectada às suas contrapartes na América do Norte e na Europa. Ao longo dos anos essas nações avançaram em acordos de proteção de investimentos e já possuem um histórico de empresas multinacionais por aqui; logo, torna-se o local perfeito para aproveitar um cenário de desglobalização e insegurança com dois objetivos. O primeiro e mais obvio é diminuir riscos às cadeias produtivas,  mantendo mais rápido o transporte de peças e de produtos e buscando diminuir choques externos na economia nacional, como desabastecimentos e processos inflacionários baseados em custos.

O segundo, embora mais sutil, é importantíssimo do ponto de vista geopolítico. Ao ampliar as operações de empresas europeias e americanas na América Latina, diminui-se a influência chinesa na região, que há muito tempo vem se expandido em detrimento da influencia de Washington. Neste contexto, o Brasil, que historicamente tem interesses e negócios em ambos os lados do tabuleiro geopolítico, pode, com as movimentações corretas, sair ganhando ao atrair indústrias, gerando empregos e usufruindo de um cenário de conflito e confusão internacional para seu próprio benefício.

Não nos vejo entrando em um mundo de total desglobalização, uma espécie de retorno a um total protecionismo dos Estados. Acredito que os riscos geopolíticos da atualidade diminuíram de fato a Globalização e nos ‘jogaram’ em um cenário de neoregionalização, onde a conta risco/benefício fica cada dia mais simples ser calculdada.

 

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