Pesquisar
Pesquisar
Close this search box.

Da Praça da Bandeira ao Caminho de Arronches – o Benfica; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

“Quem foi que sepultou teus violões,
Tuas festas de Reis, tuas lanternas,
Teus sobrados, serões e bandolins?”

Artur Eduardo Benevides – “Canto de Amor a Fortaleza”

“Que é das moças tristonhas nas janelas?
Os bramidos do mar no Paredão
Porque, na noite, não te escutam mais?”

Jáder de Carvalho

Residência de João Gentil na então Avenida Visconde de Cauipe, atual Avenida da Universidade.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Fui buscar em deliciosa narrativa a motivação para associar aos registros de Arlene Holanda, em “Benfica”, as memórias por mim recolhidas inadvertidamente nestes anos que tenho vivido.

Não sou propriamente um cronista da história. Faltam-me presunção e aplicação para tornar-me um cultor das graças e da beleza desta cidade, meu berço e meu passeio pela vida inteira. Previno os leitores, se os houver, que de sentimentalista tenho muito pouco. Sou um olheiro do tempo, movido pelas circunstâncias que terminam por construir as explicações para os fatos e para a realidade que projetamos dos nossos anseios ocultos – e dissimulados. O Benfica que vos trago é um pedaço das minhas gratas lembranças adolescentes – dei-me a licença de ficcionista e, aqui e ali, crio situações e registros sobre as quais não devo satisfação a ninguém.

Dei asas à imaginação, como Pedro Nava o fez, ao descrever do seu baú de ossos, a Fortaleza da sua juventude, embora sem os mesmos recursos memorialísticos. Hão de dizer, Nava foi uma revelação tardia da memorialística. Com os méritos que me faltam.

Do Benfica, venho falar como habitante, morador, já adolescente, ali domiciliado em lastimada migração da praia de Iracema; como trânsfuga pelo acaso e a necessidade, que ali fez morada com os avós.

Antonio Martins Filho: sua atuação construiu uma universidade e definiu os contornos de bairros de Fortaleza. Pintura de Oswaldo Teixeira – 1956

Fui testemunha da grande transfiguração do bairro com o advento da Universidade, que abrangia em uma única designação as mudanças que adviriam por aqueles anos da década de 1950, quando Antônio Martins Filho desembarcaria naquele lugar com velhos sonhos audaciosos, anhelos de embarcadiço à espera do porto de chegada.

Por Benfica construí, sem alvará, um amplo perímetro que, a rigor, incorpora no meu imaginário sentimental e afetivo vários bairros cuja integração terminou por fundi-los em uma e única metáfora ou toponímia.

Desta paragem fiz uma metáfora amável e terna. Benfica, Farias Brito, José Bonifácio, Campo do Prado, Damas, o Caminho de Arronches e o bairro de Fátima são os contornos de um burgo divididos em muitos quintais de uma vila que se tornaria cidade.

Este enorme latifúndio de lembranças recolhidas começa ao nascente, na rua Senador Pompeu, tendo ao norte a praça Clóvis Beviláqua, a oeste, a avenida do Imperador e ao sul, as Damas, outrora Caminho ou Estrada de Arronches.

Reitoria da UFC
Reitoria da UFC

Poderia começar este inventário sentimental pelo prédio da Reitoria. Ou pelas chácaras, sobrados e palacetes que emparelhavam a riqueza dos seus proprietários com os habitantes menos abonados; ou pelos bondes a arrastarem-se pelo ensombrado adusto deitado pelo arvoredo, ao longo do boulevard e dos quintais. Ou pelo Campo do Prado por onde corriam, aos sábados e domingos, os cavalos e os jóqueis improvisados, a enorme extensão de grama cercando a via pública pelos espaços hoje ocupados pelo Instituto Federal e pelo estádio Presidente Getúlio Vargas. Antes de tornar-se a avenida 13 de maio, deste bairro de Fátima, estendia-se o arruado da Flor do Prado, em progresso para o nascente, até o Alto da Balança.

Começarei pela rua Cachorra Magra, viela mal-comportada que ligava a rua senador Pompeu ao boulevard. Porque conforme as minhas primeiras descobertas, havia ali um abatedouro, provavelmente irregular, que provia a vizinhança de carne e dos miúdos e daquelas partes que se oferecem, hoje, nos restaurantes elegantes, como ossobuco.

Anos depois, a Cachorra Magra abrigaria o laboratório de biologia e genética, do qual se ocupava o cientista Francisco José do Amaral Vieira. Das pesquisas realizadas no lugar, grande repercussão alcançou o cruzamento de um gato com um coelho, de cuja união resultaria uma espécie absolutamente improvável no quadro da Criação – o gatelho. Se non è vero, è ben trovato.

O Boulevard, Corredor Cultural do Benfica e a Universidade
A primeira vez que avancei para além da Praça da Bandeira, assim chamada desde o Estado Novo (hoje, Praça Clóvis Beviláqua, inspiração maior dos nossos juristas), deparei-me com a majestosa ordenação urbana circundante, cuja importância resultou da imponência da mansão do Barão de Camocim, solar que abrigaria a enorme e brilhante grei dos Leite Barbosas/Lauro Chaves. A casa pertencera originalmente a Geminiano Maia, natural de Aracati, comerciante, estabelecido com os irmãos com a importadora de tecidos Maison Louvre, na rua major Facundo.

O prédio da Faculdade de Direito, situado à rua Meton de Alencar, defronte à Praça Clóvis Beviláqua, foi inaugurado em 12 de março de 1938.

A Faculdade de Direito, fundada em 21 de fevereiro 1903, por um grupo de advogados e bacharéis, seria estadualizada seis meses depois. O atual prédio, situado na rua Meton de Alencar, foi inaugurado em 12 de maio de 1938, tendo sido ampliado pelo reitor Antônio Martins Filho, no seu primeiro reitorado (1955/1958) e inaugurado pelo presidente Juscelino Kubitschek. O seu primeiro diretor, em 1903, foi o dr. Antônio Pinto Nogueira Accioly, futuro governador do estado do Ceará.

A rádio Uirapuru emprestou o ar de modernidade ao logradouro com a instalação dos seus estúdios e transmissores na então praça da Bandeira. A praça seria objeto de obras para a coleta e o abastecimento d´água, com a construção, no subsolo de toda a área do logradouro, da monumental cisterna que substituiria as caixas-d´água existentes e agora tombadas pelo patrimônio histórico.

Antigas Caixas d´água, ao lado da Faculdade de Direito. Hoje, tombados pelo patrimônio.

Dalí em diante, já era terreno do Benfica, com residências e chácaras a ladearem o boulevard Visconde de Cauípe [Visconde de Cauípe tornou-se Severiano Ribeiro da Cunha (1831/1876), comerciante e homem do governo]. A referência boulevard aparecerá sempre neste texto como alusão à avenida, hoje da Universidade que a muitos poderia ter de acréscimo “Martins Filho” — Avenida da Universidade-reitor Antônio Martins Filho.

Avenida Visconde de Cauipe, depois, da Universidade

Da rua Meton de Alencar até à rua Padre Cícero, seguindo o traçado do boulevard, futura avenida da Universidade, a cerca de dez quadras, estende-se, atualmente, o campus do Benfica da UFC, conhecido como Corredor Cultural de Fortaleza (não o restringiria, por capricho, ao Benfica).

Na longa avenida, velhas edificações foram sendo incorporadas pela UFC, mediante desapropriação, algumas delas, restauradas pelo seu valor histórico e arquitetônico, outras, demolidas ou reformadas.

Lendário cruzamento da Av. da Universidade com Av. Treze de Maio, anos 70. Podemos ver a reitoria da UFC e a fonte dos cavalinhos.

Para refrescar a memória dos que não haviam ainda chegado às lides acadêmicas, naqueles anos 60, lembre-se que naquela confluência entre a avenida 13 de maio e a da Universidade, nas proximidades do balão da Fonte dos Cavalinhos, a estudantada enfrentou as tropas que chegavam aos campus para “restabelecer a ordem”.

A exemplo do boulevard Saint-Michel, no Quartier Latin, em Paris, os alunos de letras e ciências sociais fizeram justiça com “as própria mãos, munidos com os paralelepídedos” da via pública. A fonte fez morada efêmera no Benfica, logo retirada e encerrada em galpões da prefeitura, salva pelo prefeito Lúcio Alcântara e a diretora do Museu de Arte da UFC, Zuleide Martins de Menezes.

Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuariais.

A atual Faculdade de Ciências Econômicas, Curso, em determinada época de reformas anunciadas, ocupou uma bela edificação na qual funcionara o Grupo Escolar Rodolfo Teófilo. Ocorreu, neste caso, como em situações análogas, a permuta de imóveis, com a edificação pela UFC de prédio em localidades próximas. Antes, porém, abrigaria o Instituto do Ceará e o Instituto de Antropologia, este último criado pelo professor Thomaz Pompeu Sobrinho, por iniciativa da Universidade.

No prédio maior, funcionou o Conservatório Alberto Nepomuceno. Ao seu lado, o Teatro Universitário.

O prédio do Conservatório Alberto Nepomuceno absorveu melhoramentos e ampliações significativas, com a construção do Teatro Universitário que veio a chamar-se Pascoal de Carlos Magno, homenagem ao ilustre dramaturgo brasileiro. O conjunto funcionou por muitos anos em regime de comodato, sob a gestão da UFC e do estado, posteriormente, da Universidade Estadual do Ceará — UECE. A residência da família da senhora Seres Braga sediaria as coordenações de pós-graduação da área de economia.

Desde sua criação em 1971, a Casa Amarela oferece à comunidade cursos de formação na área de audiovisual (Foto: Arquivo/UFC Informa).

A Casa Amarela, com esta cor e o prestigio que alcançou como centro de documentação cinematográfica de guarda e produção seria a grande obra de Eusélio Oliveira, pelas mãos de quem muitos cineastas e documentaristas foram formados, trabalho prosseguido pelo seu filho, Wolney Oliveira, uma das mais importantes revelações da sua geração de cineastas do Ceará.

A Fundição Cearense resistiu à chegada da Universidade, pelas suas vizinhanças. O velho Bandeira criaria ali, entre forjas e prensas e o fogo da criação, o garoto Antônio, muito rapidamente, adolescente, seduzido pela artesania do pai e pela vocação para as artes plásticas, pela literatura e a poesia, esteio da sua vida como artista, mundo afora.

O Instituto de Antropologia ocuparia, antes de fundir-se com a Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, o prédio no qual funcionam atualmente os serviços médicos da UFC.

Cultura germânica, no polo da UFC no Benfica

Na vasta gleba situada entre o boulevard e a ruasenador Pompeu, a avenida 13 de maio, a rua Juvenal Galeno e a rua marechal Deodoro, três edificações existentes foram adaptadas à suas novas funções: os Centros de Cultura Germânica, Italiana, Portuguesa, Francesa e as faculdades de Letras e de Educação. A este espaço, integrado, de numerosos cursos, foi dada a designação de campus de Humanidades. O Clube dos Estudantes Universitários – CEU – seria ocupado inicialmente pelo Restaurante Universitário, pela Residência Universitária e pela praça de esportes, em anexo. Posteriormente, alguns ajustes e adaptações foram feitos nas edificações, com a ocupação do lugar pelo Centro de Aperfeiçoamento e Estudos Econômicos do Nordeste – CAEN – o Núcleo de Documentação Oral – NUDOC.

Em área vizinha, indo até a avenida 13 de maio, na confluência entre a reitoria e o Museu de Arte – MAUC, instalara-se, na outrora residência de João Tomé de Saboia, a Escola de Engenharia, logo transferida para a área de tecnologia do campus do Pici. Na quadra, situada entre a avenida 13 de maio, o boulevard e a avenida Carapinima, instalou-se a Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, posteriormente desmembrada, por ocasião da reforma universitária de 1968, nos Departamentos de Ciências Sociais e Filosofia e de Comunicação Social, História, Filosofia e Psicologia.

Nesta área nenhum dos prédios incorporados à UFC resistiu às imposições do projeto de pleno aproveitamento da área para as suas atividades didáticas e administrativas. Em seu lugar, ergueram-se numerosos equipamentos didáticos que abrigam, hoje, considerável população de estudantes.

Residência do deputado Edgar Arruda, hoje a Rádio FM Universitária.
Faculdade de Letras, Centro de Humanidades da UFC
Antigo colégio Santa Cecília. Imóvel foi demolido e deu lugar ao Museu de Arte da UFC.

Na área central, entre o boulevard, as ruas N.S. dos Remédios, pe. Francisco Pinto e a avenida Carapinima, a quadra inteira foi ocupada, de um lado, pela reitoria da UFC e pela Concha Acústica reitor Martins Filho. Em frente, ao longo do boulevard, ocupando meia quadra, foram instalados o Museu de Arte, a Escola de Arquitetura, a Imprensa Universitária e a Rádio Universitária FM, conjunto do qual se estende, em direção à Faculdade de Direito, o Corredor Cultural do Benfica.

O MAUC funcionou nos dois primeiros anos desde a sua criação nas instalações do Colégio Santa Cecília, até a sua demolição quando foi construída a nova sede do Museu, em duas etapas de expansão física e das salas permanentes de exposição do seu acervo, constituído, ainda no reitorado de Antônio Martins Filho, sob a coordenação de Antônio Bandeira, Sérvulo Esmeraldo, Zenon, Floriano Teixeira, Alba Frota, Lívio Xavier Júnior e Zuleide Martins de Menezes.

Entre as ruas Paulino Nogueira e  pe. Francisco Pinto, as edificações originárias foram demolidas para a construção de novos equipamentos didáticos, inicialmente, para alunos do Ano Vestibular e, depois, postos a serviços do Ciclo Básico e de cursos de graduação.

Em um edifício que servira a três colégios – o Colégio Americano, o Ginásio N.S. das Graças e a Escola Doméstica, de origem residência da família João Gentil, funcionou, a partir de 1959, até os anos 67, o Departamento de Cultura da UFC, notável centro de estudos e projetos universitários, origem de todo o planejamento didático e de pesquisa da Universidade, com a criação dos Institutos de Ciências Básicas e Aplicadas e origem dos Núcleos de Pesquisa, bases e fundamento de toda a política de C&T da instituição.

Toda a área de pesquisa pura e aplicada seria transferida progressivamente para os campi do Pici e de Porangabuçu. Da equipe constituída sob a coordenação do professor Valnir Chagas, Artur Eduardo Benevides e Hélio Melo, participavam os jovens estudantes, à época: Hélio Barros, Paulo Elpídio de Menezes Neto, Maria da Conceição Souza, Artur Pedreira, Carlyle Brasil de Oliveira, Mário Cosme dos Santos e Dario da Silva Brayner.

A residência estudantil da UFC na Praça da Gentilândia

A Gentilândia e a rua N.S. dos Remédios encerrariam este registro que completa a ocupação física planejada do Benfica pela Universidade Federal do Ceará, nos 10 primeiros anos da sua criação. Outros espaços espalham-se pelo entorno, com reconhecida importância. A Gentilândia se transformaria na praça boêmia do Benfica, com a Residência Estudantil masculina, o Centro de Esperanto e o Sindicato dos servidores da UFC. Na rua N.S dos Remédios, permanecem algumas casas da vila construída por José Gentil, muitas das quais abrigaram servidores da reitoria.

Ideias, pessoas, projetos e a base física da nascente Universidade

Martins Filho recebe o presidente Juscelino Kubitschek na UFC.

Numerosos foram os instrumentos de planejamento de que se serviu a administração da jovem, ainda embrionária Universidade do Ceará. Cercado de poucos auxiliares, Martins Filho foi aprendendo mais sobre as universidades em suas viagens de exploração e descobrimento pelo mundo.

Fez amizades pela Capital Federal, ainda o Rio de Janeiro, despertou insatisfações na cidade pois não podia empregar a todas as talentosas criaturas à procura de emprego federal. Buliu e mexeu, tornou-se referência entre os reitores brasileiros, o suficiente para dar, em 12 anos de administração, o perfil de Universidade ao empreendimento que venceu as resistências da província e a avidez ancestral das oligarquias.

Poucos sabiam, entre os políticos mais atuantes do Ceará, por aqueles tempos, o que era uma Universidade, o seu significado cultural e cientifico, além do que poderia oferecer como uma repartição federal com bons empregos para distribuir com as pessoas de boa família.

O risco maior do empreendimento pairava, entretanto, sobre os pleitos vencidos e os reclamos por virem: sentia-se o odor daquele Ceará “profundo”, insaciável, de favores e de benefícios na admiração dos políticos que, só muito mais tarde, cresceram em influência e propósitos em relação à Universidade. Os mesmos partidos, nascidos das velhas oligarquias, com ares de modernidade mal assumida, alternavam-se em uma república preguiçosa e despreparada no assédio à Universidade que mal acabara de nascer.

Faustino de Albuquerque, em 1947, foi eleito Governador do Ceará pela União Democrática Nacional-UDN.

Nas duas tentativas de criação de uma Universidade no Ceará, em 1948, a primeira, com o desembargador Faustino Albuquerque, governador, e em 1954, no governo Getúlio Vargas, na sua versão democrática, Martins Filho foi autor do projeto e da Exposição de motivos que propunha a criação de uma Universidade no Ceará. A primeira delas, uma Mensagem à Assembleia Legislativa do Ceará; a segunda, a Exposição de Motivos submetida pelo presidente Vargas ao Congresso Nacional.

Otávio Lobo, professor e deputado federal pelo PSD, foi autor do parecer da Comissão de Educação, da Câmara dos Deputados, com base no qual a lei veio a ser sancionada, já no governo Café Filho. Em 1948, a ideia morreria em face da insatisfação produzida pela indicação do filho do governador para o cargo de reitor. No segundo momento, o PSD teria feito o reitor não houvesse Getúlio Vargas cometido o suicídio.

A UDN não alcançou, por muito pouco, a reitoria, mercê do desinteresse de Faustino Albuquerque em levar a cabo a nomeação do filho como reitor. Nos dois casos, fato inédito na história universal das universidades, tivemos o reitor escolhido, por nomear, antes de criada a Universidade.

A sustentação do Projeto UFC desenvolveu-se em três momentos, a realização dos três seminários que fixaram os objetivos, as estratégias e o “timing” para a sua execução.

A estratégia adotada pelo reitor Martins Filho estabeleceria a constituição de um foro permanente de professores e estudantes – os Seminários Anuais de Professores, nos anos 1959, 1960 e 1961 como impulso inicial que sistematizaria as ações executivas e de governo e administração da UFC.

Outro passo decisivo seria dado, a seu tempo, com os projetos de financiamento externo para a edificação e consolidação dos campi, do Benfica, Pici e do Porangabuçu. O primeiro, no reitorado de Antônio Martins Filho (1967), o segundo no reitorado de Walter de Moura Cantídio (197l) e o terceiro (1982/84), nos reitorados de Paulo Elpídio de Menezes Neto e de José Anchieta Esmeraldo Barreto.

As chácaras, os palacetes, os sobrados e a burguesia do Benfica
O acervo documental sobre o Benfica, constituído de crônicas e registros, ilustrados  com imagens de época, mantém, em produção renovada, narrativas jornalísticas e estudos históricos  sobre o bairro. Não cogitei em organizar uma bibliografia que, embora não sendo definitiva, porém, atualizada, reunisse o que de mais relevante foi escrito e publicado sobre Fortaleza. Não que considerasse irrelevante o esforço; ao contrário, faltavam-me disciplina e empenho para este sedutor empreendimento.

Ademais, não são poucos os historiadores e documentalistas que poderiam assumir este encargo. Faço, contudo, referência a alguns textos e depoimentos que não poderão ser esquecidos. É escolha pessoal, não uma listagem exaustiva que, a outros mais pacientes, deixo por encargo.

Praça Visconde de Pelotas (atual Praça Clóvis Beviláqua) e as duas caixas-d’água, Fortaleza. Cartão postal, coleção de Aline Figueirôa Silva.

Aventurei-me, anos atrás, em editar pela Imprensa Universitária da UFC, da qual fui diretor, muitos anos antes de ter assumido a reitoria, um álbum, intitulado “Fortaleza 1910”. O projeto gráfico trouxe uma coleção de fotos valiosas do acervo da Casa Boris [“Fortaleza – 1910”, Imprensa Universitária da UFC, Fortaleza, 1980], reunidas há quase cem anos atrás em uma edição encadernada, publicada em Nice, França, nos anos 1800. Na edição brasileira, foi possível motivar escritores e poetas, historiadores e cronistas que, com a sua colaboração, preencheram os vazios de texto que as ilustrações pediam.

Os bairros e o centro, praias e logradouros que deram origem a uma bela cidade florescente, estão neste álbum, evocados em prosa e verso por um grupo de “especialistas em Fortaleza”: Antônio Girão Barroso, Antônio Sales, Filgueiras Lima, Gustavo Barroso, Jáder de Carvalho, Martins d´Alvarez, Mílton Dias, Eduardo Campos, Mozart Sorano Aderaldo, Otacílio Colares, Otacílio de Azevedo, Paula Ney e Raimundo Girão.

Acervos particulares, velhos baús familiares e a memória das lembranças perdidas
O roteiro da crônica histórica e dos registros sobre a cidade de Fortaleza e, no caso do qual nos ocupamos, os leitores e o autor destas lembranças, ganhou, nos tempos recentes, novas cores.

A sistematização do esforço de consolidação de temas significativos da história do Ceará e do nordeste, do ponto social, político e econômico, ampliou mais recentemente, o vezo analítico e crítico de jovens historiadores. Eles vêm da universidade, com a formação marcada pela pesquisa documental das fontes primárias e secundárias, preparo metodológico e pelo rico acervo da História Oral, cuja origem está fixada no Núcleo de Documentação Oral do Ceará – NUDOC, criado pela professora Teresa Haguette, na década de 80, no reitorado de Paulo Elpídio de Menezes Neto.

No Departamento de História, abriu-se, nos anos 2020, uma promissora linha de pesquisa sobre o “800 brasileiro”, com destaque para o Ceará, animada pela historiadora Sara Cortez Irffi. De algumas teses concluídas, três delas, publicadas pela Editora Universitária da UFC, versam sobre os caminhos de ferro do Ceará e a penetração e o povoamento do estado.

Martins Filho lidera visita às obras da Concha Acústica da UFC.

A atualização e a diversificação historiográfica tem sido aprofundada na academia, com quanto boa parte dos acervos de imagens tenha sido incorporado a acervos particulares. A estas fontes privadas recorrem os pesquisadores, salvo as hemerotecas sob a guarda da Biblioteca do Estado do Ceará. Neste registro, utilizamos imagens que, pela sua importância histórica, são consideradas de domínio público, ainda que sejam feitas as referências cabíveis aos seus conservadores.

O Caminho de Arronches
O Benfica estava a caminho de Arronches; antes de lá chegar, identificado na toponímia como Parangaba. Parangaba reclama da denominação  originária da vila ou arruado – Porangaba – fica no grande entorno da lagoa da Maraponga. Arronches é nome de um povoado no Alentejo, em Portugal, antes de tornar homônima do vilarejo cearense, a que se daria a denominação de Nova Arronches.

Caminho do Arronches, atual avenida da Universidade é avenida João Pessoa, que liga o Centro de Fortaleza ao antigo distrito de Parangaba.

No Ceará foi povoado sem grandes merecimentos, embora já dispusesse de uma cadeia e da sua Casa da Câmara, com Intendente e todos os anspeçadas, que as artes da governança não são adequadamente exercidas se não houver quem governe…

A lenta transformação ligaria, por obra de uma incipiente economia, Abranches a Fortaleza, por onde passavam as manadas de gado para os abatedouros na Capital, o chamado cajueiro do Fagundes e outros em diversos bairros, inclusive no centro de Fortaleza. O Matadouro Modelo, de 1926, passaria a funcionar com instalações modernas, no bairro atualmente denominado de Jardim América.

Nas proximidades da Maraponga, por onde habitavam índios pouco-educados e beligerantes, instalou-se o português Carneiro a quem se deve provavelmente a denominação de Arronches dada à lagoa e ao vilarejo, hoje Parangaba. [Assis Lima – “Parangaba a antiga vila de Arronches”, Fortaleza,2021].

Pois bem, o Benfica, a passagem para Arronches, acompanhou o deslocamento da povoação da Barra do Ceará e do Alagadiço em direção ao sul. Fortaleza expandia-se para a Praia de Iracema e a Prainha, em direção ao nascente, ao encontro do sol desta terra calcinada pelos desafios do destino e dos homens – e enriquecida pela sua coragem –, enquanto aprofundava a penetração para o interior.

Sítios e propriedades de criação e amplos terrenos deixados por ocupar, serviram de atração para a fixação dos traçados urbanos que deram lugar à avenida da Universidade, na década de 1960, a imponentes palacetes e chácaras e moradias modestas, numa aproximação social em processo de aburguesamento crescente.

Deste casario que começa a estender-se em datas próximas aos 900, e do ensombrado das árvores, decorre o encanto que seduzia as famílias mais abastadas que para ali se mudaram.

Desenrolam-se por essa época os anos dourados do Benfica, até os anos 50 quando a Aldeota, já feita bairro elegante da cidade, símbolo de uma onda renovada de novos-ricos, iria assistir a arribação de muitos dos seus moradores para as novas áreas nobres da nascente Aldeota, outrora Outeiro.

A Vila Gentil, a Gentilândia e a Flor do Prado
A Vila Gentil surgiu em torno de um amplo espaço que seria a praça da Gentilândia, berço do casario ordenado construído no lugar. Com algumas alterações que o tempo ditaria, alguns prédios do entorno seriam adaptados a novas funções, como serviços da reitoria da UFC.

Leiria de Andrade e Fanca, médicos, ali residiram e constituíram família; a viúva do dr. Antônio Albuquerque e Souza, ex-secretário da Fazenda, a Sra. Beatriz Fontenelle Albuquerque. Dorian Sampaio com o seu gabinete odontológico, quando, cassado em 1964, no exercício do cargo de vereador, voltara a clinicar. Por muito pouco tempo pois o jornalismo o convocaria para a linha de frente da oposição que começava a organizar-se contra o governo.

A vila Gentil, Gentilândia, é obra de capricho de José Gentil Alves de Carvalho, filho de Sobral, patriarca de extensa família, que marcaria uma linhagem na sociedade de Fortaleza, com uma numerosa descendência, por via do entrelaçamento familiar que se tornou comum em uma cidade em formação.

A Gentilândia confronta-se com a Flor do Prado, designação gentil, concedida à atual avenida 13 de maio, que se alonga em traçado linear até ao Alto da Balança, conforme já assinalado. Nas extremidades, situam-se, a partir da junção do Prado com o bairro de Fátima, os estabelecimentos e batalhões militares, aquartelados em imensa gleba com residências de oficiais, e a Base Aérea da Aeronáutica.

Vista aérea da área que mais tarde foi ocupada por casarões e depois equipamentos diretivos acadêmicos da UFC. A então Lagoa do Tauape, depois aterrada, virou a Praça da Gentilândia. Mais acima, lado direito, o Campo do Prado com suas raias para corridas de cavalos. Hoje, é o estádio Presidente Vargas.

A avenida Carapinima e a expansão comercial pelo Benfica
Com a apropriação pela UFC da maior parte dos imóveis e terrenos ao longo do boulevard, pontos comerciais, escritórios, consultórios e uma variedade de pequenos negócios, foram se instalando ao longo da avenida Carapinima, extensão da avenida Tristão Gonçalves. Dentre os empreendimentos empresariais mais importantes, o maior de todos fixados na confluência daqueles logradouros, é o Shopping Benfica, pela enorme superfície ocupada e pela diversidade dos serviços e ramos de negócio ali reunidos. João Soares Neto moldou à sua maneira preferências e atividades culturais que tornaram o Shopping Benfica uma referência entre as empresas do ramo.

Leituras de referência
Alene Holanda – “Benfica”, Coleção Pajeú, SECULT, Fortaleza, 2015;
Assis Lima – “Parangaba, a Antiga Vila de Arronches”, Fortaleza, 2021;
Eduardo Campos – “Capítulos da História de Fortaleza”, Fortaleza, 1984;
Francisco  de Andrade Barroso – “O Benfica de Ontem e de Hoje”, Fortaleza, 2004;
João Nogueira – “Fortaleza Velha”, Fortaleza 1954
Leila Nobre – “Bairro Benfica”, Fortaleza 2018;
Marciano Lopes – “Fortaleza dos anos 40”, Fortaleza, Armazém da Cultura, Fortaleza, 2012;
Miguel Angelo de Azevedo, Nirez  – “Cronologia Ilustrada de Fortaleza”, Casa José de Alencar, Fortaleza,  2001; “Indice Analítico e Iconografia da Cronologia Ilustrada, vol. 2 – Banco do Nordeste, Fortaleza, 2001; “Fortaleza de Ontem e hoje” Fortaleza,1991;
Mozart Soriano Aderaldo – “A Praça”, Tipogresso, Fortaleza,1989; “História Abreviada de Fortaleza”, Imprensa Universitaria UFC, Fortaleza,1993;
Otacilio de Azevedo – “Fortaleza Descalça”, Imprensa Universitária UFC, Fortaleza, 1980;
Otacílio Colares – “Crônicas de Fortaleza e do Ceará Grande”, Imprensa Universitária UFC, Fortaleza 1980;
Paulo Elpídio de Menezes Neto & Outros – “Fortaleza 1910”, IUC, Fortaleza, 1980
Pedro Alberto Oliveira – “A Gentilândia e o Bairro do Benfica”, in Revista do Instituto do Ceará;
Raimundo Menezes – “Coisas que o Tempo Levou”, Hucitec, Rio de Janeiro, 1977;
Raymundo Neto – “Cadeiras na Calçada”, IMPRECE, Fortaleza, 2009.

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

Leia Também

 

Da Praia de Iracema a Jacarecanga: traço gostoso de uma tentação burguesa; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

Carta de navegação e cabotagem em maré vazante na Praia de Iracema; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

Mais notícias