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A vida como ela é. Por Angela Barros Leal

Eram seis filhas do primeiro casamento, todas mulheres, e três filhos homens do segundo, com o Velho. Os mais queridos, e não era segredo nenhum, eram a terceira do primeiro casamento, e o caçula do segundo. Com a terceira, a Mãe ia para todo canto, especialmente para o interior, onde ela, a Mãe, ainda tinha umas terras que herdara do pai: coisa pouca, em termos da Capital, mas de algum valor nos arredores locais.  

A cada viagem, a terceira filha, que ia junto, vendia um retalhozinho de terra. Um lote ali, um lote acolá, e botava o dinheiro na bolsa. A Mãe assinava o papel que a filha apresentasse, fosse qual fosse, sem nem olhar. Desconfiava que ela estivesse vendendo as terras, mas eram muitas, nem ia fazer diferença.

O resto da irmandade não pensava da mesma forma. Cada retorno de viagem era um alarido semelhante ao de mulheres árabes, um vozerio espelhado nos brados de guerreiros turcos, agitando os conjuntos habitacionais onde moravam, quando os filhos confirmavam que mais um retalhozinho de terra tinha sido vendido, e nada de dinheiro para ninguém – exceto para o bolso da terceira filha.

Viam o resultado na mudança de carro dela, nos sapatos que ela desfilava em visitas, na decoração da casa onde morava com o único filho, nas compras que fazia nos grandes supermercados, e não nos mercadinhos dos bairros, como eles todos costumavam fazer. 

Mas todo mundo sabe que dinheiro voa. O dinheiro da terceira filha voou, junto com as terras, que de retalho em retalho descobriram a finitude. A filha voltou para o ônibus, para o mercadinho, para a roupa usada, e decidiu ir morar com o filho na casa da Mãe, o que os outros não queriam que acontecesse, de jeito nenhum. Ia era acabar a pensão da Mãe, diziam, e ligeiro!

Com o aumento populacional o Velho quis ir embora, e a Mãe secretamente gostou. Ele queria cinco mil para sair de casa, e a Mãe considerou que valia a pena. Pediu os cinco mil à primeira filha, a única que mantinha um trabalho estável, com dinheiro no bolso todo final de mês, a mais trabalhadora, a mais responsável.

Era justamente o valor que ela acabara de dar para garantir a compra de uma casinha, que tinha negociado para morar. Pensou, repensou, consultou quem quisesse ouvir. Cada cabeça dava uma sentença, cada boca falava uma opinião, mas Mãe era Mãe.

Ela respirou fundo, voltou no vendedor da casa, e desfez o negócio. Recebeu das mãos dele três mil, e nada mais. A diferença era uma multa, ele disse, pelo negoção que havia deixado de fazer com outro comprador, que queria dar seis mil. Ela sabia que era pura mentira, porque a casinha não valia nem os cinco, mas baixou a cabeça e aceitou.

A Mãe despachou o Velho, arrumou um quarto para a filha querida, um pequenininho para o neto, e ofereceu à mais velha os fundos do terreno da casa, para ela construir.

Filhos e filhas se enfileiraram no mesmo alarido e vozerio guerreiro, que a mais velha nem escutou. De pouco em pouco fez a morada dela, mesmo sem o piso, de telha vã, e ainda ergueu um muro para separar da casa da Mãe. Os irmãos ameaçaram colocar a casa da Mãe à venda, contando como se fossem duas: a dela e a da Mãe. Ela foi na empresa de eletricidade e conseguiu que puxassem uma linha de luz só para a casa dela, acenando com o boleto para os irmãos, a garantia da sua propriedade.

Quem mais se zangou com a doação da terra no quintal foi o irmão caçula, aposentado desde a adolescência por não ser muito bom do juízo, e que resolveu sair do quartinho onde morava para ir tomar satisfações na casa da Mãe 

Gritou do lado de fora até ficar rouco, chutou o portão de alumínio, orgulho da Mãe, amassou algumas placas do portão, rasgou a chinela havaiana de tanto chutar, agarrou pedras da rua e arrancou pedaços da lajota da calçada, jogando contra a casa, por cima do muro, e ninguém apareceu. Exceto os vizinhos, que resolveram chamar a Polícia, e que enquanto os policiais não chegavam se ocuparam em espancar o desordeiro.

Ouvindo finalmente a voz da Mãe, por trás do muro, gritando “Tão matando meu filho! Tão matando meu filho!”, a Polícia algemou o rapaz, ferido e transtornado, e o levou ao hospital mais próximo, para ser cuidado das marcas do quase linchamento. 

Só a irmã mais velha foi visitar o rapaz no hospital, e foi quem pagou uma pessoa para dormir ao lado dele, no corredor. Depois, conversando com uma e com outra cliente, foi ela quem conseguiu transferência dele para o Hospital Mental, onde está até agora. A Mãe, de 86 anos, seguiu para outro hospital, e ainda está se recuperando do infarto sofrido naquele mesmo dia. 

Para uma das clientes, a filha mais velha diz, imitando não muito bem o sotaque do Roberto Carlos: “É assim que pobre vive, no meio de tantash emoçõesh”. 

Com um risinho de lado, enquanto passa nas unhas da cliente a última camada da misturinha dos esmaltes Vinho e Licor, da Risqué, ela finaliza: “Muito sofrimento, e nada resolvido. E essa cor! Essa cor vai ficar linda com o seu vestido!”

 

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