Pesquisar
Pesquisar
Close this search box.

A folhinha nossa de cada dia. Por Angela Barros Leal

É uma questão de costume: todo santo dia, destaco uma folhinha do calendário de parede, estampado com a imagem do coração de Jesus, a mais perfeita ilustração para o tempo que se vai, que se esvai no movimento firme da mão. A passagem dos dias é algo que sangra, deve ser esse o recado daquele coração exposto. Ou então, talvez seja outra a mensagem: a de que o tempo nos trai, deixando os dias caírem tão de leve como as folhas das árvores – ou como as folhinhas do calendário, que desfolho fielmente toda manhã.

Estou um tanto confusa. Como cheguei aqui, já na metade do calendário, se mal registrei, na minha contabilidade mental, os meses que se foram? Será possível que o sopro do tempo tenha despetalado, sem eu ver, uma sequência veloz de meses, jogando as folhas na minha gaveta?

Sem coragem de me desfazer delas, fui guardando as folhinhas arrancadas, cada uma delas a prova física, a evidência concreta, na dimensão de 6cm por 9cm, da passagem de 24 horas, somando juntas um ano inteiro de preciosas informações.
O tempo passa, mas sem o calendário do coração de Jesus, como saberia eu ser o dia primeiro de fevereiro aquele no qual se celebram as vidas de São Severo de Antióquia, sobre o qual pouco se conhece, e de Santa Veridiana, que por virgem e reclusa foi escolhida para protetora dos presidiários? E que as glórias vão para São Gastão no dia 6 do mesmo mês, o Santo de múltiplos nomes, chamado também de Vedasto, Vaasto, em flamengo, e Foster, em inglês?

Como eu descobriria, no mês de março, que ao receber Jesus Cristo para uma refeição, após a ressureição de seu irmão Lázaro, Maria Madalena pegara “um frasco de um perfume de nardo puro, muito caro” [Jo 12,3], e com ele ungira os pés do visitante, enxugando-os depois com seus longos cabelos, e que a casa ficara inteira perfumada?

E como teria eu agilizado meus movimentos para acessar a internet (cujo Dia Mundial se dá em 17 de maio), e adquirir de um vendedor de essências, instalado em uma esquina qualquer do espaço virtual, um pequeno frasco do referido nardo – aliás, nem tão caro assim –, para sentir também o perfume que ocupara a casa do ressuscitado, na casinha da modesta vila de Betânia? E quando recebo a essência e removo a tampa, como saberia eu que o cheiro iria me carregar de volta a lugares onde nunca estive?

Quem me informaria sobre o provérbio russo que diz: “Se estás cansado de um amigo, empresta-lhe dinheiro”, ou sobre o outro, esse português: “Onde te querem muito, não vás amiúde”, ou citaria o indiano Rabindranath Tagore: “Na canção da correnteza do rio ressoa a alegre certeza de que em breve será oceano”?.

Ausente o calendário de parede, com suas folhinhas descartáveis, como eu teria conhecimento da existência, apenas no mês de abril, de um dia especial para celebrar a natação (dia 8), para honrar o Hino Nacional (dia 13), para homenagear os diplomatas (dia 20, a quem eu julgava que pertencessem todos os países, e todos os dias), e um dia reservado à figura do goleiro (dia 26)?

Calendário algum, por mais tecnológico que venha a ser, me traria dicas para cozinhar frango (“Antes de temperar o frango escalde com água fervente e suco de limão”), ou mostraria que abril é um bom mês para o plantio de beterraba, cebolinha, cenoura e melancia, ou ensinaria como eliminar manchas (“De batom: esfregue um pouco de álcool no tecido antes de lavar.”)

Com o indicador da mão esquerda Jesus aponta o próprio coração, circundado por uma coroa de espinhos, enquanto a mão direita se ergue em bênção. Faz assim desde 1939, quando foi publicada a primeira folhinha para o ano seguinte, e que conquistaria o País, fazendo o número de impressos superar um milhão de exemplares. Hoje são 600 mil, informa a editora Vozes, e eu penso: nos dias de hoje, qual publicação no Brasil consegue ostentar tal volume?

Não estou sozinha. E o calendário me permite acompanhar as fases da lua: quarto crescente, lua cheia, quarto minguante e a lua nova, a respeito da qual a divina mineira de Divinópolis, Adélia Prado, escreveu em um dia de perda desconsolada: “No dia 8 de janeiro está escrito na folhinha:/ A FÉ GUIOU OS MAGOS — LUA NOVA AMANHÃ./ Lua nova,/ que nome mais bonito pra um consolo.”

Dela também a fidelidade à folhinha, que louva em precisas palavras: “Informativo Popular Coração de Jesus/ é o nome de um calendário de parede./ ABENÇOAI ESTE LAR está escrito nele./ O coração sangra na estampa,/ mas o rosto é doce, próprio a enternecer/ as mulheres da cozinha, feito eu.”

Feito nós, querida Adélia, que acompanhamos, admiradas, a passagem dos dias.

Mais notícias